Guego Anunciação. O futuro é agora, e ele é preto

19 de julho de 2019

Artista da dança, bailarino, coreógrafo, professor e mestrando em dança pela UFBA

Ao acessar uma notícia na televisão, rádio, jornal impresso ou mídias digitais que comece com a frase “um jovem negro suburbano”, o que normalmente preveem os pensamentos do(a) espectador(a)? Opção um, dois, três... Vamos lá! Começarei assim: Um jovem negro suburbano, ou melhor, o jovem negro suburbano, artista, educador e revolucionário tem nome, sobrenome, afeto e muita potência criativa. Sua carreira na área de dança tem como expressão principal o balé.

Atualmente está na pós-graduação, mais precisamente no mestrado da Universidade Federal da Bahia, pesquisando a presença do corpo negro no balé, produzindo conhecimento e pontes que viabilizam a dança clássica, dentre outros espaços, nas periferias do Brasil e do mundo. O incômodo de adjetivos e práticas ofensivas acerca de sua cor, território e identidades foram ignição para seu avanço e, na trajetória espetacular, não lhe faltaram referências, muitas delas suburbanas como ele. Inspirações para a sua vida e carreira.

As periferias do Brasil são férteis em referências promissoras para a juventude, não só nas artes como em outras áreas do conhecimento. Os saberes suburbanos costumam se desenvolver em um cenário de escassez e ausências, as crianças crescem cheias de “não” e lidar com tantas negações, em um período de descobertas, pode oferecer riscos para o desenvolvimento do jovem e para sua atuação na sociedade.

Neste cenário de restrições surgem as contradições: Minoria representativa é maioria real, silenciados gritam em favor da sua existência, enquanto se negligencia saúde, segurança, educação e moradia. Mas quando o oprimido percebe suas potências, bum!!! Nada será como antes. Sendo assim, retomarei as apresentações e deixemos que o próprio sujeito, protagonista da sua história, inspiração e referência para mim e tantas outras pessoas, manifeste o brilho da sua presença, resistência e plenitude.

 

Entrevista realizada com Guego Anunciação

Natureza França: Quem é Guego?

Guego Anunciação: Guego é força, determinação e superação. Negro, nascido e criado no subúrbio de Salvador, usei isso como ignição para tudo que tenho me tornado e me tornarei. Guego é Afrofuturista!

Natureza França: Guego, como foi a sua infância?

Guego Anunciação: Minha infância se deu particularmente em Tubarão/Paripe, bairro do subúrbio ferroviário de Salvador. Tive uma infância que eu não troco por nada. Tudo aquilo me fez crescer e ser quem eu sou hoje. A educação sempre foi algo forte na minha casa. Meus pais todo tempo me incentivaram e estimularam para os estudos, para avançar, crescer na vida e não ser mais uma estatística. Tive uma família estruturada nos moldes que a sociedade quer. Pai, mãe, filho e filha. Minha família é tudo! Foram e são meus primeiros fãs. Sem eles eu não seria nada. Pude ter acesso a algumas informações, locais e espaços, talvez pelo fato de minha família ser composta por pessoas da área da educação, especialmente minha tia avó, Ednalva Lúcia, mais conhecida como Dina, que foi e é um grande exemplo de mulher para toda família. Minha tia avó era a maior pessoa que estimulava nossos estudos, queria muito que ela pudesse ver aonde eu cheguei, afinal, isso é fruto do trabalho dela. Como outras crianças negras, tive muitas invisibilidades, e só depois de muito tempo que vim notar o quão forte aquilo era. Os outros queriam me moldar, para que eu estivesse no local que eles achavam que negro tem que estar. Eu sempre fui persistente, mas, sem o apoio da família, nunca conseguiria. Nunca.

Natureza França: Quais são as suas referências?

Guego Anunciação: Minha base são minhas referências. Minha tia avó que era a grande matriarca da família Anunciação, minha vó paterna, que sempre foi guerreira e um ser humano incrível, meu pai, que sempre sustentou a casa, minha mãe que sempre me ensinou o caminho. Tenho muitas referências na minha vida profissional, que eu não ouso citá-las, pois posso acabar esquecendo alguém.

Natureza França: O que fez e o que faz na vida?

Guego Anunciação: Sou artista da dança, bailarino, coreógrafo, professor e mestrando em dança. Trabalho com criação e difusão em dança, técnicas corporais, especialmente o balé clássico que é a mais duradora da minha formação.

Natureza França: O que você nos conta sobre sua experiência em Dança, Educação e Revolução enquanto artista educador?

Guego Anunciação: Minha primeira experiência com dança foi vendo o grupo baiano É o Tchan! e adorando ver Jacaré dançando. (risos) Eu amava!!! Com técnicas codificadas, tudo começou por volta dos 13 anos, quando pisei pela primeira vez numa escola de balé. Fiz até os dias de hoje, ou melhor, faço. Obviamente que com o passar do tempo a minha relação foi mudando, fui começando a entender o contexto das coisas. Depois de um tempo, principalmente quando ingressei na universidade, em 2010, comecei a dar aulas. Eu já sabia que eu seria professor, só não sabia de qual área. Achei que seria de história ou educação física, porque sempre tive medo e receio em viver da dança, porque nos falam sempre negativamente. Viver de arte no Brasil é bem difícil, sendo negro, mais ainda.

Natureza França: O que te faz minguar e o que te faz crescer?

Guego Anunciação: Acho que é um paradoxo essa pergunta. A dificuldade me faz minguar, e, ao mesmo tempo, ela me faz crescer. O fato de não ter algo, me deixa num lugar inquieto que acaba virando tesão para o crescimento. É tipo uma flor que nasce no meio do caos. Tenho tentado pensar assim.

Natureza França: Quais os principais trabalhos que você participou?

Guego Anunciação: Eu já fiz muita coisa, muito trabalho. Às vezes acho que já tenho uns 40 anos, mas só tenho 27 (risos). Para mim, a residência artística que fiz com Idan Cohen foi importante demais. Ele é um coreógrafo de Israel que selecionou 5 bailarinos(nas) da Bahia para trabalhar com ele durante um mês árduo. Foi dolorido e ao mesmo tempo delicioso. Para mim, existe um outro artista depois daquela experiência em 2014.

Outra experiência profissional que eu curto muito falar é meu solo "Missa do sétimo dia", que criei por ter sido selecionado num edital. O solo fala sobre o genocídio de jovens negros. O processo foi doloroso porque era e é real, e eu também estou envolvido nisso.

Natureza França: Destaque um desses trabalhos e sua relevância para a sociedade.

Guego Anunciação: Eu acho que esses trabalhos que eu fiz tem uma relevância muito grande para a sociedade, porque tem uma relevância para mim e eu estou inserido nisso. Eu sou essa sociedade, eu sou esse sujeito periférico da sociedade, então acredito que quando um sujeito periférico consegue ter um acesso maior a determinadas coisas, a periferia também vai crescendo, porque é uma daquelas pessoas que a representam. Então eu, nascido e criado no subúrbio, morador de Periperi durante muitos anos, estar envolvido em alguns trabalhos artísticos, dançar o meu solo, por exemplo, dentro da programação do Festival Internacional Viva Dança, em duas cidades do interior da Bahia e em vários outros lugares, assim como fui convidado agora para dançar este solo no México, para mim isso tem uma relevância muito grande para a sociedade porque é alguém que saiu de um espaço, de um estereótipo que é colocado o tempo todo com negatividade e a gente extrapola os índices, sabe? Eu sou mais um jovem negro, nascido na periferia, que não está atrás das grades, por exemplo, que está dentro da Universidade, que está construindo arte, que é educador. Eu acho que adentrar esse universo é importante, porque a gente fala de representatividade e outras pessoas me vendo nesse lugar podem se sentir contempladas de que um dia elas também podem conseguir, também podem chegar. Não é só um sonho, é real.

Natureza França: Já que você é da arte, depois dessa entrevista, o que mais gostaria de acrescentar de forma livre e poética?

Guego Anunciação: A gente está vivendo um período em que as pessoas precisam aceitar, precisam nos engolir no sentido de aceitar o que a gente faz, porque a gente não vai baixar a guarda e durante muito tempo a gente foi invisibilizado, e ainda é, mas eu sinto que a gente está num momento com uma geração que coloca as caras, está dando a cara para bater, que está fazendo, reivindicando. Eu sinto muito orgulho de ser também dessa geração de artistas negros que estão produzindo arte, que estão fazendo difusão, que vivem de arte em Salvador, no Brasil e que os seus trabalhos levam as suas questões, refletem as questões do povo, da sociedade, do cotidiano e que dentro disso tudo a gente traz um discurso muito forte sobre o racismo, sobre a invisibilidade que nos ronda, tenta nos cercar e paralisar o tempo todo, e a gente continua produzindo com isso. Então eu acredito que a gente é muito forte para estar vivendo neste mundo, neste país que é tão racista, excludente e a gente vive de forma digna, honesta e exemplar. Eu fico feliz porque ao meu redor tem pessoas que contribuem muito para isso, me inspiram. Quando eu vejo coletivos negros, coletivos periféricos e pessoas defendendo sua realidade com um modo de vida eficaz, sadio e que merece ser respeitado, eu fico muito feliz. Eu fico muito feliz também porque a gente está lutando o tempo todo contra esse controle que a sociedade vai colocando nos corpos negros, dizendo que a gente precisa ficar nesse espaço, naquele espaço, que aquele espaço é da gente e esse aqui não é, e para mim o que fica muito nítido nisso tudo é que eu posso estar aonde eu quiser porque para mim não dá mais para engolir alguém falar que eu negro não posso adentrar no balé clássico ou que minhas alunas não podem. Esse tempo já acabou, já acabou porque a gente está em tudo, a gente consome tudo, a gente está na cultura, na arte, nas mídias e cada vez mais a gente está rompendo estereótipos e mostrando a força que a gente tem. Isso para mim serve muito de inspiração também, de ver outras pessoas, outras construções e olhar para isso como ignição para o meu fazer.