05 de Mai de 2020

Arte na Educação: um diálogo necessário

Discorrer sobre Arte sem tratar das questões humanas é quase impossível. Falar do “humano” sem tratar do seu desenvolvimento e dos valores que o compõem, também. Diante disso, é importante agirmos tal qual o artista que ousa adentrar nas dimensões subjetivas, tão importantes quanto as objetivas, da natureza humana. Natureza esta, tão complexa e idiossincrática que, a todo tempo, nos convida a mergulhar para compreender os conflitos que fazem parte dela. Compreendendo-os, temos condições de, no mínimo, aceitá-los. Aceitando-os, criamos condições favoráveis para dissolvê-los e, assim, atingirmos a tão almejada plenitude.

Quando pensamos em educação associamos imediatamente aos conteúdos formais que são de extrema relevância para a construção teórica do nosso repertório intelectual. No entanto, precisamos pensar também que aprender é um processo que mobiliza todos os sentidos do indivíduo e educar não significa reprimi-los, significa, sim, estimulá-los e expressá-los através de ações belas, ricas e significativas.

De acordo com Freire (1996, p. 50), a educação é possível ao ser humano porque este é inconcluso, inacabado e “o inacabamento do ser ou a sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento”. Para o autor, a educação implica num exercício constante para melhorar, pois tanto mais e melhor a nossa capacidade de aprender e de ensinar, mais sujeitos presentes e não puros objetos do processo seremos.

Na Arte, o processo de criação está ligado à sensibilidade que o indivíduo possui de intuir, imaginar e perceber amplamente o que acontece ao seu redor de forma equilibrada, coerente e criativa.

De modo geral, a arte está estritamente ligada à diversão, àquilo que se faz quando não se tem o que fazer. Ir ao teatro, ao cinema, ao museu ou mesmo ouvir uma boa música ou ainda ler um livro, por exemplo, são atividades que não estão na lista das prioridades. Há quem prefira, muitas vezes, consumir uma cultura artificial e passageira a ir a um museu ou ao teatro. Não. Isso não é julgamento. Temos a liberdade de acessarmos o que quisermos e o que é mais conveniente para cada um de nós.

O que aqui pretendemos é observar que ainda hoje a arte não é considerada como uma área do conhecimento tão pertinente quanto quaisquer outras que fazem parte do conteúdo curricular. Comumente, a disciplina Artes ainda é vista como aquele momento feito para “relaxar” e esquecer do Português, da Matemática, da História, das Ciências.

No entanto, há que se considerar que a arte na educação favorece o desenvolvimento cognitivo e possui conteúdos próprios, capazes de estimular situações adequadas à construção de conhecimento, bem como o desenvolvimento da criatividade e da capacidade de discernir e pensar a realidade como um todo. Talvez, por isso, seja considerada como uma “ameaça” e, consequentemente, seja tão negligenciada e relegada a planos inferiores na realidade da educação brasileira atual.

A Arte e as linguagens que a compõem (teatro, música, plásticas, dança) podem ser consideradas grandes aliadas da Educação e podem servir de base para ações que proporcionem aos indivíduos a possibilidade de serem construtores de uma sociedade mais equilibrada, percebendo como a diversidade, as diferenças (de raça, etnia, gênero, classe social ou referências culturais) podem apresentar modos de ver e de dar significado ao mundo, trabalhando valores éticos para despertar as suas capacidades criadoras e, consequentemente, promover o seu desenvolvimento.

Para Duarte Jr (1991), a utilização da Arte como viés para a educação não significa o treino para alguém se tornar artista, mas uma maneira de abordar o fenômeno educacional, considerando-o não apenas transmissão simbólica de conteúdo, informações e conhecimentos, mas um processo formativo do ser humano na sua totalidade.

Quando executamos ações educativas que envolvem a Arte, temos a possibilidade de observar e trabalhar com os valores que permeiam a Educação e desenvolver projetos nos quais temas socialmente relevantes sejam trabalhados de maneira aprofundada, sendo, por assim dizer, uma oportunidade para ampliar o entendimento e a atuação dos educandos dentro e fora da Escola.

Que possamos abraçar o compromisso não só de meramente informar e formar profissionais para o mercado de trabalho, mas promover a sensibilização e o desenvolvimento dos seres humanos para que possam contribuir significativamente na transformação da realidade, estimulando-os a pautar suas ações em valores éticos que sirvam de base para novas construções, atuando com responsabilidade, razão, bom senso, boa intenção, criatividade. Que possam, ainda, exercer e aplicar as suas habilidades cognitivas, sem perder de vista as afetivas.

Pensemos na Arte como uma possibilidade de nos renovarmos, de nos reinventarmos para irmos além de nós mesmos, sem perdemos a conexão com a nossa interioridade. Por isso, encerro com o poema de Cecília Meireles que nos convida a esta renovação. Persistamos.

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.
(Cecília Meireles)

 

BARRETO, Dionne Guimarães
Arte-Educadora. Mestre em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social. Especialista em Metodologia do Ensino de Artes. Graduada em Artes Cênicas pela UFBA

 

REFERÊNCIAS
DUARTE JR., João Francisco. Por que arte-educação? 6. ed. Campinas, SP: Papirus, 1991.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.