Projeto itinerante leva cinema movido a energia solar para comunidades da Bahia, une tradição e inovação e revela o poder do audiovisual como espaço de pertencimento, memória e transformação social.
Parece cena de cinema: uma trupe chega a bordo de um caminhão, anunciando exibições de filmes na cidade. Dessa vez, a história salta da tela e se instala em comunidades de quatro municípios da Bahia — Alagoinhas, Feira de Santana, Valença e Juazeiro. Em vez de um roteiro de ficção, o enredo real é o do Cinergia Diversa: um cinema itinerante, movido a energia solar, que democratiza o acesso ao audiovisual em territórios onde as salas tradicionais não chegam.
Em Poço de Fora, distrito de Juazeiro (BA), a estrutura foi montada ao ar livre. Crianças, jovens e idosos ocuparam as cadeiras, enquanto o grupo do Reisado — tradição centenária da região — se apresentou pela primeira vez fora da festa de janeiro. Quando as luzes se apagaram e o primeiro filme começou, a comunidade não apenas assistiu: se reconheceu.
A curadoria assinada por Natureza França traduziu esse cuidado. Foram escolhidos filmes que dialogam com a vida e a identidade local, como Cartas para Oxum, Reisado, Dona Dalva: A vida e a roda, Meu nome é Maalum! e Salu e o Cavalo Marinho. Obras que falam de infância, autoestima, ancestralidade, tradições e pertencimento. “As sessões trouxeram produções baianas de diferentes gêneros, entre ficção, documentário e animação. Nosso objetivo é valorizar a diversidade cultural e promover a inclusão através do cinema”, explica Natureza.
O diferencial do projeto está em como e onde ele decide estar. O foco não são os centros urbanos, mas os lugares onde o cinema quase nunca chega: zonas rurais, bairros periféricos e comunidades tradicionais. “Essas comunidades estão afastadas dos centros, com dificuldade de transporte e sem acesso ao lazer. O critério foi ir onde há ausência — mas ir com cuidado, com respeito. Minha mãe dizia: ‘chegue devagar, pise leve’. E foi assim que fomos bem recebidos”, conta o produtor cultural Davi Bahia, morador do subúrbio de Salvador e que tem raízes na zona rural.
Essa forma de atuar também envolveu a participação direta das comunidades desde o início. A mobilização, a divulgação em rádios e mídias locais, a contratação de pipoqueiros, carros de som, artistas e fornecedores da região fizeram parte da metodologia. O recurso foi descentralizado para fortalecer economias locais e, ao mesmo tempo, criar vínculos reais.
Além do cinema, a programação abriu espaço para manifestações culturais locais: coletivos de rap, grupos de percussão, teatro, poesia, cordel e oficinas de turbante. Em Poço de Fora, a memória ancestral ganhou palco. O Reisado, com mais de 100 anos de história, se apresentou pela primeira vez fora da data tradicional — e recebeu cachê. Katia, educadora social e guardiã da tradição na família, se emocionou:
“Foi lindo. A gente vive num lugar esquecido, sem opções de lazer e sem presença do Estado. Quando o cinema chegou, com filme que fala a nossa língua, foi como se dissesse: vocês também são cultura.”
Mas o Cinergia Diversa também se deixou surpreender. Em Orobó, zona rural de Valença, a equipe descobriu que o audiovisual já havia transformado o território. Moradoras criaram, junto com a UFBA, um documentário denunciando o racismo ambiental vivido por quem morava ao lado do antigo lixão da cidade. A iniciativa nasceu do coletivo Cinema Delas, formado por mulheres da comunidade.
“Antes, Orobó era visto como o lugar do lixão. Depois do filme, passamos a ser reconhecidas por outra coisa. Mostramos que aqui também tem arte, força e história”, diz Taniele, agente comunitária de saúde e liderança local. O documentário ultrapassou fronteiras: foi exibido em Salvador e até no exterior. “O Orobó é um eterno filme. Nossa história precisa continuar sendo contada por nós”, completa.
A acessibilidade também foi marca do projeto. Sessões com recursos para pessoas cegas e surdas garantiram participação plena. Para Deneide, moradora cega de Alagoinhas, a experiência foi transformadora:
“Foi fantástico. Eu me senti parte, pude acompanhar e quero que continue. Não é só para pessoas cegas: beneficia quem tem dislexia, autismo, e tantas outras condições. É um projeto que tem que se expandir, porque dá acesso e dá voz.”
Após a passagem do Cinergia Diversa por Poço de Fora, Katia refletiu sobre a experiência e sobre as perspectivas de reconhecimento cultural para a comunidade:
“Com a chegada do Cinergia, a gente se sentiu lembrado. Foi muito importante ver nossa cultura valorizada e nossa comunidade respeitada. Eu gostaria que houvesse mais iniciativas assim, que o projeto voltasse, porque a gente precisa de continuidade. Nosso desejo é simples: não queremos ser esquecidos.”
Ao longo do percurso, o Cinergia Diversa deixou rastros duradouros: quatro salas públicas de cinema equipadas, 100 moradores capacitados em produção cultural e audiovisual, 32 jovens remunerados e inseridos na cadeia produtiva, além da contratação de 16 profissionais locais do setor. O impacto se multiplica em autoestima e pertencimento. “A gente dizia: vocês também podem fazer filmes, podem contar suas histórias. Isso mexe com o imaginário, com o desejo de criar”, resume Davi.
Criado pela organização Pontos Diversos, o Cinergia Diversa foi contemplado pelo edital Cinemas e Salas Públicas Vocacionadas e financiado pela Lei Paulo Gustavo. A Pontos Diversos atua em diferentes áreas — cultura, educação, meio ambiente e geração de renda — sempre com foco em reduzir desigualdades e valorizar a diversidade humana.


















































































